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Conversas difíceis

Corrigir um colega na frente do cliente: quando sim e quando nunca

O colega acabou de prometer um prazo que não existe, na frente do cliente. Você tem poucos segundos para decidir: corrigir agora, depois ou nunca?

Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em

A reunião com o cliente ia bem até o Eduardo, coordenador técnico, responder a uma pergunta sobre a integração com o sistema de cobrança: "Isso entra na próxima sprint, sem problema". Você sabe que não entra. A integração depende de uma liberação do fornecedor que nem tem data ainda. O cliente sorri e anota.

Você tem talvez três segundos antes de a conversa seguir para o próximo ponto. Corrigir agora parece desautorizar o colega na frente de quem paga o projeto. Ficar quieto parece aceitar um compromisso que vai explodir em duas semanas.

Não existe uma resposta única para esse momento, mas existe um critério. E ele é mais simples do que parece quando você está suando na cadeira.

O que está em jogo nesses três segundos

Há duas coisas em risco, e elas puxam em direções opostas. De um lado, a confiança do cliente: se uma informação errada vira decisão ou expectativa, o problema vai aparecer depois, maior e com a pergunta "por que ninguém avisou?". De outro, a relação com o colega e a imagem da equipe: uma correção desajeitada pode parecer briga interna, e cliente nenhum gosta de ver o time do fornecedor se contradizendo.

O erro mais caro não é corrigir ou deixar de corrigir. É decidir no impulso, sem critério, e depois tentar justificar a escolha.

Por que a gente trava (ou atropela)

Muita gente trava por hierarquia e lealdade. O colega é mais experiente, ou é seu par, ou é de outra área, e corrigi-lo em público parece quebrar uma regra não escrita de proteger o time. Há também o medo de estar errado: e se ele souber de algo que você não sabe?

Outros atropelam. Corrigem na hora, com detalhes, porque se sentem responsáveis pela informação ou porque querem mostrar ao cliente que estão no controle. Às vezes, sem perceber, querem marcar posição diante do colega. A correção pode até estar certa, mas a forma comunica disputa.

E do lado de quem errou, raramente há má-fé. O Eduardo provavelmente quis ser prestativo, respondeu com base no que sabia na última conversa ou sentiu a pressão de não dizer "não sei" na frente do cliente. Entender isso ajuda a corrigir sem transformar o momento em julgamento.

Corrigir para ganhar, calar para agradar

O primeiro erro comum é corrigir para ter razão: "Na verdade não, Eduardo, isso não está previsto". A informação fica certa, mas o colega fica exposto e o cliente passa a desconfiar de tudo o que ele disser dali em diante.

O segundo é calar e torcer. Você pensa que vai resolver depois e não resolve, ou resolve só com o colega e esquece de corrigir com o cliente. A expectativa errada fica registrada na cabeça de quem paga o projeto, e quando o prazo não se cumpre, a culpa é de todos.

Um critério para decidir na hora

Corrija ainda na reunião quando o erro vai virar decisão ou compromisso do cliente. Nos demais casos, corrija depois. Para aplicar isso em segundos, use três perguntas rápidas: o cliente vai agir com base nessa informação? Ela cria um compromisso de prazo, custo ou escopo? Esperar vai tornar a correção mais difícil?

A partir das respostas, o caminho se desenha:

  • Se a informação gera compromisso ou decisão (prazo, preço, escopo, risco), corrija na reunião, mas de forma que preserve o colega: uma pergunta, um complemento ou uma ressalva.
  • Se for um detalhe sem consequência prática (um nome trocado, um número arredondado), deixe passar e comente em particular depois.
  • Se você não tiver certeza de que é um erro, pergunte em vez de afirmar. A pergunta abre espaço para o colega se corrigir ou para você descobrir que ele sabe algo novo.
  • Se o colega insistir no ponto errado depois da sua intervenção, não dispute ali. Proponha confirmar e retornar por escrito, e faça isso no mesmo dia.
  • Se a reunião terminar sem que você tenha conseguido corrigir, mande uma mensagem ao cliente no mesmo dia ajustando a informação, depois de alinhar com o colega.

A forma importa tanto quanto a decisão. Corrigir com uma pergunta ("Eduardo, isso já considera a liberação do fornecedor?") permite que ele mesmo ajuste. Corrigir com um complemento ("Só para registrar, essa entrega depende do fornecedor liberar o ambiente") traz a informação sem dizer que ele errou. Em ambos os casos, o cliente vê uma equipe que se completa, não que se contradiz.

Frases que corrigem sem expor

"Eduardo, só para eu não passar nada errado: isso já considera a liberação do ambiente pelo fornecedor?"

"Complementando o que o Eduardo falou: a integração está no plano, mas a data depende do fornecedor. Até sexta eu confirmo com vocês."

"Deixa a gente confirmar esse ponto internamente e retornar por escrito ainda hoje, para não te passar um prazo sem certeza."

E na conversa em particular, logo depois:

"Precisei complementar aquele ponto da integração na reunião, porque a data ainda depende do fornecedor. Queria te explicar por que fiz isso e combinar como a gente alinha antes da próxima."

Como saber se a correção funcionou

Observe a reação do cliente na hora. Se ele anota a ressalva e segue com naturalidade, a correção passou como parte normal da conversa. Se ele fica desconfiado, pergunta "então afinal, entra ou não entra?", é sinal de que a equipe precisa alinhar melhor antes das reuniões, e você deve retornar com uma resposta clara o quanto antes.

Observe também o colega depois. Se ele aceita bem a conversa em particular e passa a alinhar com você antes das reuniões, a relação saiu fortalecida. Se fica ressentido ou começa a te excluir de reuniões com o cliente, a forma da correção pode ter pesado. Vale uma segunda conversa, com mais escuta, apoiada no que funciona para dar feedback para quem não quer ouvir.

Se o cliente reagir mal à correção, com irritação ou cobrança, o guia sobre cliente irritado em reunião ajuda a conduzir o restante da conversa.

Exemplo: a promessa de migração no fim de semana

Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Larissa era GP de um projeto de infraestrutura em uma empresa de saúde. Numa reunião de acompanhamento, o especialista de banco de dados, Renato, disse ao cliente que a migração poderia ser feita no fim de semana seguinte. Larissa sabia que a janela de manutenção ainda não tinha sido aprovada pela área de segurança do próprio cliente.

Ela aplicou as três perguntas: o cliente ia se organizar com base naquilo, havia compromisso de data e esperar tornaria tudo mais difícil. Decidiu intervir, mas com uma pergunta: "Renato, essa data já considera a aprovação da janela pela segurança?". Renato percebeu na hora e respondeu que não, que a data era viável tecnicamente, mas dependia da aprovação. Larissa completou dizendo que retornaria por escrito com a data confirmada.

Depois da reunião, ela chamou Renato para um café. Explicou por que tinha intervindo, reconheceu que ele estava certo sobre a parte técnica e propôs uma conversa rápida de dez minutos antes de cada reunião com o cliente, para alinhar o que estava confirmado e o que ainda dependia de terceiros. Renato aceitou, e nas reuniões seguintes passou a ele mesmo sinalizar as dependências.

O que essa decisão mostra sobre você

Saber corrigir um colega em público sem expô-lo é sinal de que você entende que sua responsabilidade é com a informação e com a relação ao mesmo tempo. GPs em início de carreira tendem a escolher uma das duas: ou protegem o colega e deixam o cliente mal informado, ou protegem a informação e queimam o colega.

O amadurecimento aparece quando você deixa de ver a reunião como palco e passa a vê-la como parte de uma relação contínua com cada stakeholder. Isso vale também para você: se a informação errada tivesse saído da sua boca, o caminho seria parecido, e o passo a passo está em como assumir um erro no projeto. Os princípios por trás de todas essas situações estão reunidos no guia de conversas difíceis no projeto.

Uma prática simples reduz muito esses momentos: alinhar antes. Dez minutos com a equipe antes de cada reunião com o cliente, revisando o que está confirmado e o que ainda é hipótese, evitam a maior parte das correções públicas. E manter um registro de decisões atualizado dá a todos a mesma fonte para consultar.

Checklist para a próxima reunião com o cliente

  • Alinhei com a equipe, antes da reunião, o que está confirmado e o que ainda é hipótese.
  • Sei quais temas costumam gerar promessas apressadas (prazo, escopo, custo).
  • Tenho pronta uma frase de pergunta e uma de complemento para usar se precisar.
  • Combinei com a equipe que dúvidas na hora viram "confirmamos e retornamos".
  • Após a reunião, reviso se alguma informação precisa ser corrigida por escrito.
  • Se corrigi alguém, converso em particular no mesmo dia.

Antes da próxima reunião com cliente

Escolha a próxima reunião com cliente da sua agenda e marque dez minutos antes dela com quem vai participar. Revisem juntos três pontos: o que está confirmado, o que depende de terceiros e o que ninguém deve prometer na hora.

Se mesmo assim alguém disser algo errado, você já sabe as três perguntas. E terá combinado antes, com a equipe, que uma correção cuidadosa é parte do trabalho em conjunto, não um ataque.

Perguntas frequentes

É falta de ética deixar uma informação errada passar na reunião com o cliente?

Depende do que está em jogo. Se o erro vai orientar uma decisão do cliente ou gerar compromisso, ele precisa ser corrigido, de preferência ainda na reunião ou logo depois por escrito. Se for um detalhe sem consequência, corrigir depois, em particular, é suficiente e não esconde nada de quem tem direito à informação.

Como corrigir um colega mais sênior na frente do cliente?

Use a mesma lógica, com mais cuidado na forma. Faça uma pergunta que abra espaço para ele mesmo ajustar, ou complemente a informação como acréscimo, sem dizer que ele errou. Depois, converse em particular sobre o que aconteceu e como combinar melhor nas próximas reuniões.

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