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Influência e política organizacional

Quando duas áreas disputam o seu projeto

Comercial quer lançar rápido, operações quer estabilidade, e as duas pedem coisas incompatíveis para o mesmo mês. Seu papel não é escolher o lado, é fazer a decisão acontecer.

Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em

Duas mensagens chegaram na mesma manhã. A diretora comercial pedia que o novo fluxo de compra do aplicativo fosse priorizado para a campanha do próximo trimestre. O diretor de operações pedia que a equipe se concentrasse na integração com o centro de distribuição, porque os erros de estoque estavam gerando reclamações. As duas mensagens terminavam com a mesma palavra: "urgente".

A equipe não tem capacidade para as duas coisas no mesmo prazo. E cada diretor, em conversas separadas, deixa claro que espera que você "faça a coisa certa", que obviamente é a que ele pediu.

Você está no meio. Qualquer escolha que fizer vai irritar alguém com mais poder do que você, e não escolher também parece uma escolha.

O que está em jogo quando o GP vira árbitro informal

O risco mais imediato é o projeto andar em duas direções ao mesmo tempo. A equipe tenta atender os dois pedidos, nenhum deles sai bem feito e os dois diretores ficam insatisfeitos. É comum que, nessa situação, o time trabalhe muito e entregue pouco.

O segundo risco é pessoal. Se você decide sozinho, assume uma decisão de negócio que não é sua e passa a ser visto como aliado de um lado. A área preterida vai lembrar disso nas próximas negociações. E, se a decisão der errado, não haverá ninguém acima de você para dividir a responsabilidade.

Há ainda o custo para a organização: quando o conflito é resolvido por desgaste ou por quem grita mais alto, a empresa deixa de tomar uma decisão consciente sobre prioridades. O projeto vira o lugar onde uma disputa maior se manifesta, sem ser resolvida.

Por que as duas áreas brigam pelo mesmo projeto

Na maioria dos casos, ninguém está agindo de má-fé. Cada diretoria tem metas próprias, cobradas por alguém acima delas. A diretora comercial responde por receita e a campanha é a grande aposta do trimestre. O diretor de operações responde por nível de serviço e está vendo as reclamações chegarem. Os dois estão defendendo o que foram contratados para defender.

O conflito também costuma revelar uma decisão que ficou para trás. Quando o projeto foi aprovado, provavelmente ninguém definiu com clareza qual objetivo vinha primeiro caso houvesse disputa. O business case prometia benefícios para as duas áreas, e a escolha entre eles foi adiada até agora.

Existem fatores menos visíveis: rivalidades antigas, disputas por orçamento em outros temas, diferenças de estilo entre os dois diretores. Nem sempre você vai conhecer essa história, mas ela costuma estar lá.

E há a sua parte. Talvez você tenha acolhido os pedidos de cada um sem deixar claro que eram incompatíveis. Talvez tenha prometido "ver o que dá para fazer" para os dois. Esse tipo de resposta, compreensível na hora, alimenta a expectativa de ambos.

A armadilha de tentar agradar os dois

O erro mais comum é dividir a equipe ao meio, prometer as duas entregas com prazos apertados e torcer para dar certo. Isso adia o conflito em vez de resolvê-lo, e geralmente termina com duas entregas atrasadas.

Outro erro é escolher um lado de forma velada, priorizando o pedido do diretor com quem você tem mais afinidade, ou daquele que parece mais poderoso, sem tornar isso explícito. Quando a outra área perceber, e ela vai perceber, a sua neutralidade estará comprometida.

Como levar o conflito até uma decisão

Seu papel não é decidir a prioridade de negócio. É transformar duas demandas concorrentes em uma escolha clara, com custos visíveis, nas mãos de quem tem autoridade para fazer essa escolha.

  1. Explicite o conflito para os dois. Deixe claro, por escrito e em conversa, que os pedidos não cabem juntos no mesmo prazo, com a capacidade atual.
  2. Entenda o que cada área realmente precisa. Por trás de cada pedido existe um objetivo. Às vezes uma versão menor da entrega já resolve o problema principal de uma das áreas.
  3. Monte opções, não um placar. Liste de duas a quatro alternativas, com impacto em prazo, custo, risco e benefício para cada área. A matriz de decisão ajuda a comparar de forma transparente.
  4. Leve as opções aos dois diretores juntos. Uma reunião conjunta evita versões paralelas e mostra que você não está negociando por fora.
  5. Registre a decisão e comunique a todos. Inclusive à equipe, que precisa saber o que mudou e por quê.

A partir daí, o caminho depende de como os diretores reagem:

Se os dois chegarem a um acordo com base nas opções, registre e siga. É o melhor cenário, e acontece com mais frequência do que parece quando as opções estão bem organizadas.

Se não houver acordo, combine com eles quem vai levar a questão a uma instância superior, como o sponsor, um comitê ou o executivo acima dos dois. Prepare o material com as mesmas opções. O artigo sobre como apresentar opções para uma decisão executiva ajuda a montar esse material.

Se um dos diretores tentar resolver por fora, pedindo que você priorize o pedido dele sem envolver o outro, não aceite em silêncio. Explique, com respeito, que uma decisão desse tipo precisa ser conhecida pelas duas áreas.

Se nada disso funcionar e a decisão não sair, você precisa proteger o projeto. Leve a questão à governança do projeto como risco formal, com o impacto de cada semana sem decisão. O artigo sobre escalar sem queimar pontes traz cuidados para esse momento.

O que dizer a cada lado

"Os dois pedidos fazem sentido, mas não cabem juntos no mesmo prazo com a equipe que temos. Preciso que essa escolha seja feita por quem pode fazê-la, e quero levar as opções organizadas."

"Me ajuda a entender o que é indispensável para você na campanha? Talvez exista uma versão menor que resolva o principal."

"Prefiro não priorizar sem que a área de operações saiba. Se eu fizer isso, perco a confiança de vocês dois. Podemos marcar uma conversa com os três?"

"Montei três opções com os impactos de cada uma. Não estou defendendo nenhuma; quero que a decisão seja tomada com tudo na mesa."

Sinais de que a disputa está sendo bem conduzida

Os diretores passam a discutir entre si as opções, em vez de cada um pressionar você separadamente. A conversa muda de "quem tem razão" para "qual escolha é melhor para a empresa". As duas áreas aceitam a decisão final, mesmo a que perdeu, porque o processo foi transparente.

Sinais de alerta: um dos diretores continua mandando pedidos diretamente à equipe, contornando a decisão; você percebe que está sendo citado como aliado de um dos lados; ou a decisão é tomada, mas uma das áreas age como se não tivesse sido. Nesses casos, volte à governança e reforce o registro da decisão.

Exemplo: a campanha e o centro de distribuição

Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Vinícius gerenciava a evolução do aplicativo de vendas de uma rede de materiais de construção. A diretora comercial, Mariana, e o diretor de operações, Luiz, pediam prioridades incompatíveis para o mesmo trimestre. Vinícius vinha respondendo aos dois que "ia encaixar", e a equipe estava dividida entre as duas frentes.

Ele parou e conversou separadamente com cada um, perguntando o que era indispensável. Descobriu que Mariana precisava, para a campanha, de apenas uma parte do novo fluxo de compra, e que Luiz precisava resolver principalmente os erros de estoque de duas categorias de produto. Montou três opções em uma matriz de decisão: priorizar só a campanha, priorizar só a integração ou fazer as versões reduzidas das duas com o lançamento completo adiado.

Na reunião conjunta, os dois escolheram a terceira opção, com ajustes. Nenhum saiu com tudo o que queria, mas os dois saíram com uma decisão que ajudaram a tomar. Vinícius registrou o acordo e o apresentou à equipe no mesmo dia.

O que essas disputas revelam sobre o lugar do GP

Conflitos entre áreas são um sinal de que o projeto importa. Projetos irrelevantes não são disputados. Gerentes de projetos maduros entendem isso e param de ver esses conflitos como obstáculos ao trabalho; eles são parte do trabalho.

Olhando um nível acima, o GP que consegue levar diretorias em conflito a uma decisão consciente presta um serviço à organização que vai além do projeto. Ele ajuda a empresa a explicitar prioridades que estavam escondidas. Essa capacidade está no centro da política organizacional para gerentes de projetos praticada com ética e é uma das competências mais valorizadas em quem caminha para programas e portfólio.

Checklist antes da reunião com as duas áreas

  • Deixei claro, por escrito, que os pedidos são incompatíveis no prazo atual.
  • Entendi o que é indispensável para cada área.
  • Montei de duas a quatro opções com impactos claros.
  • Usei os mesmos critérios para avaliar todas as opções.
  • Marquei uma reunião com as duas áreas juntas.
  • Sei quem decide se os dois diretores não chegarem a um acordo.
  • Planejei como vou registrar e comunicar a decisão.

O primeiro movimento é tornar o conflito visível

Se você está no meio de uma disputa entre áreas hoje, mande ainda esta semana uma mensagem curta e neutra aos dois diretores, juntos, explicando que os pedidos não cabem no mesmo prazo e propondo uma conversa conjunta com as opções organizadas. Enquanto o conflito estiver só na sua cabeça, a decisão continuará sendo sua.

Perguntas frequentes

O gerente de projetos deve decidir quando duas áreas discordam?

Na maioria dos casos, não. Prioridades entre áreas são decisões de negócio que cabem ao sponsor, a um comitê ou a quem tem autoridade sobre as duas. O papel do GP é organizar as opções, mostrar os impactos de cada uma e garantir que a decisão seja tomada a tempo e registrada.

E se não existir ninguém com autoridade sobre as duas áreas?

Sempre existe algum nível em que as duas áreas se encontram, nem que seja a presidência. Antes de chegar lá, tente um acordo entre os dois diretores com as opções organizadas. Se não houver acordo, combine com eles quem vai levar a questão para cima e com que material.

Como evitar parecer aliado de uma das áreas?

Dê às duas o mesmo acesso a informação, apresente os argumentos de cada lado de forma justa e evite conversas que pareçam alinhamento secreto com um dos lados. Se você tiver uma recomendação, explicite os critérios usados e deixe claro que a decisão final não é sua.

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