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Influência e política organizacional

Como construir aliados antes de precisar deles

Quando o projeto aperta, você liga para pessoas que mal conhece pedindo ajuda. A resposta educada e vaga é previsível. Aliança se constrói no dia comum.

Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em

O projeto entrou em crise numa terça-feira: a integração com o sistema de faturamento falhou na homologação e a data de entrada em produção ficou em risco. Você precisava de três coisas rapidamente: alguém da área de infraestrutura para liberar um ambiente, a boa vontade do coordenador de faturamento para testar fora do horário e o apoio de um diretor para segurar a data com o cliente.

Você ligou para os três. Todos foram educados. Ninguém disse não. E nada aconteceu na velocidade que você precisava.

A lição dói, mas é simples: as pessoas ajudam mais rápido quem já ajudou elas, quem já conhecem e em quem confiam. Esse capital não se constrói no dia da crise.

O que muda quando a relação já existe

Num projeto, quase tudo depende de alguém que não responde a você. Ambientes, aprovações, informações, testes, prioridade na fila de outra área. Quando a relação existe, o pedido vira conversa entre conhecidos. Quando não existe, vira mais um item na fila de alguém ocupado.

O custo de não ter aliados aparece de forma silenciosa. Pedidos demoram mais, informações chegam tarde, decisões contrárias ao projeto passam sem ninguém defender o seu ponto de vista. Em momentos críticos, a diferença entre ter ou não ter uma relação prévia pode decidir se o problema se resolve em horas ou em semanas.

Por que só procuramos as pessoas na hora do aperto

A rotina do gerente de projetos é ocupada por urgências. Cultivar relações parece algo que pode esperar, porque não tem prazo e não aparece no cronograma. Até o dia em que a falta delas aparece.

Muitos profissionais também carregam um desconforto com a ideia de construir relações "com intenção". Parece calculista, como se fosse fingir amizade por interesse. Esse receio é legítimo, e justamente por isso a diferença entre aliança e bajulação precisa estar clara: aliança se baseia em ajuda real, troca honesta e confiança construída com o tempo.

As outras pessoas também estão sobrecarregadas. Quando alguém que nunca apareceu pede prioridade, é natural que a resposta seja cautelosa. Não é má vontade; é que existem outras pessoas na fila, algumas das quais já ajudaram aquela área antes.

E há a sua parte. Talvez você apareça para outras áreas só quando o projeto precisa de algo. Talvez nunca tenha perguntado o que elas precisam. Talvez tenha deixado de agradecer publicamente uma ajuda que foi decisiva. Pequenas ausências se acumulam.

Duas formas comuns de errar a mão

A primeira é a aproximação de última hora. Você percebe que precisa de alguém, convida para um café e, na mesma conversa, faz o pedido. A pessoa percebe a intenção e a conversa fica com gosto de transação.

A segunda é o excesso de cordialidade sem conteúdo. Elogios, mensagens de aniversário, presença em todos os eventos, sem nenhuma ajuda concreta. Parece relação, mas não gera confiança, porque confiança vem de ver alguém cumprir o que promete e ajudar quando custa algo.

Gestos pequenos e consistentes que constroem aliança

Construir aliados é um hábito de baixo esforço e alta constância. O ponto de partida é saber com quem vale investir. O artigo sobre como mapear quem realmente decide no projeto ajuda a identificar as pessoas-chave, inclusive as que não aparecem no organograma.

Com a lista em mãos, alguns gestos fazem diferença:

  • Pergunte sobre o trabalho delas. Quais são as prioridades da área, o que está difícil, o que vem por aí. Interesse genuíno é raro e é percebido.
  • Compartilhe informação útil antes de pedir algo. Um aviso de que uma mudança do seu projeto vai afetar a área delas, com antecedência, vale mais do que dez cafés.
  • Ajude quando puder. Um contato, uma análise, uma brecha na sua agenda para uma reunião delas.
  • Reconheça em público. Quando alguém de outra área ajudar o projeto, mencione isso no relatório ao sponsor ou na reunião com a diretoria.
  • Cumpra o que promete, mesmo nos detalhes. É assim que você vira alguém em quem vale confiar.

Nem toda relação vai evoluir do mesmo jeito. Algumas situações pedem ajustes:

Se a pessoa for muito ocupada ou de nível hierárquico mais alto, encurte e torne útil. Uma conversa de quinze minutos com um propósito claro funciona melhor do que convites genéricos.

Se já existir um histórico ruim entre o seu projeto e a área dela, comece reconhecendo isso. Perguntar o que deu errado da última vez e o que poderia ser diferente costuma abrir mais portas do que fingir que nada aconteceu.

Se a pessoa não demonstrar interesse em se aproximar, respeite e mantenha a relação profissional e cordial. Nem toda relação vira aliança, e tudo bem. Continue cumprindo compromissos e mantendo-a informada sobre o que a afeta.

Se a crise já chegou e você não construiu as relações antes, seja honesto. Reconheça que está pedindo algo sem ter investido na relação, explique o impacto, e depois da crise volte para agradecer e manter contato. Esse retorno é o que transforma um favor isolado em início de relação.

Como abrir e manter essas conversas

"Queria entender melhor como funciona a sua área. O projeto vai mexer com vocês em alguns pontos e prefiro saber antes do que depois."

"Fiquei sabendo que vocês estão com o fechamento do trimestre. Vou segurar os testes para a semana seguinte, assim não atrapalho."

"Essa ajuda que você deu na semana passada foi decisiva. Vou mencionar isso na reunião com a diretoria."

"Não sei se a gente construiu relação suficiente para eu pedir isso, mas preciso da sua ajuda. Posso te explicar o que está acontecendo?"

Sinais de que a rede está se formando

As pessoas começam a te procurar com informações antes de você pedir. Pedidos que demoravam dias passam a ser resolvidos em horas. Em reuniões com outras áreas, alguém defende o seu ponto de vista sem você ter pedido.

Outro sinal é a reciprocidade natural: pessoas que você ajudou passam a te pedir ajuda também, e isso é bom. Relações de mão única não se sustentam.

Fique atento se suas aproximações recebem respostas formais e curtas por muito tempo, ou se você percebe que só procura as pessoas quando precisa de algo. Isso indica que o hábito ainda não pegou.

Exemplo: o GP que aprendeu na segunda crise

Exemplo ilustrativo (situação fictícia): depois de uma crise mal resolvida em um projeto de logística, Gustavo decidiu mudar a forma de se relacionar com outras áreas. No projeto seguinte, de automação de armazém em uma rede de supermercados, ele identificou cinco pessoas-chave fora da equipe: a coordenadora de infraestrutura, o gerente de segurança do trabalho, a analista fiscal, o supervisor de turno do centro de distribuição e a assistente do diretor de operações.

Nas primeiras semanas, Gustavo conversou com cada uma sem pedir nada. Perguntou sobre prioridades e preocupações. Com o gerente de segurança do trabalho, descobriu que uma mudança no layout ia exigir uma revisão de procedimentos e avisou com antecedência. Com o supervisor de turno, combinou os horários de teste para não atrapalhar picos de operação.

Meses depois, um equipamento chegou com defeito e foi preciso refazer a programação de testes. Em vez de semanas de negociação, Gustavo resolveu o ajuste com duas conversas: o supervisor liberou um turno alternativo e a coordenadora de infraestrutura priorizou a configuração do ambiente. Ninguém fez favor; eles já conheciam e confiavam no trabalho dele.

Aliança como parte do trabalho, não como extra

Construir relações com outras áreas não é uma atividade paralela ao gerenciamento de projetos. É parte do trabalho, tão importante quanto atualizar o cronograma. Gerentes de projetos mais experientes reservam tempo para isso na agenda, do mesmo jeito que reservam para reuniões de status.

Isso também tem efeito na carreira. Profissionais que constroem relações sólidas com várias áreas costumam ser lembrados para projetos maiores e mais estratégicos, porque são vistos como capazes de fazer as coisas acontecerem na organização. Essa é uma das bases da política organizacional para gerentes de projetos praticada com ética, e se conecta diretamente à visibilidade com a diretoria. E, quando um conflito precisar subir de nível, essas relações ajudam a fazer o escalonamento sem desgastar ninguém.

Checklist para começar a construir aliados

  • Identifiquei de três a cinco pessoas-chave fora da equipe do projeto.
  • Sei quais são as prioridades e preocupações de cada uma.
  • Marquei uma conversa individual com pelo menos uma delas, sem pedir nada.
  • Avisei com antecedência alguma área sobre um impacto do projeto.
  • Reconheci publicamente uma ajuda recebida de outra área.
  • Reservei um horário fixo na agenda para cuidar dessas relações.
  • Revisei se tenho procurado as pessoas só quando preciso de algo.

Um nome, uma conversa, esta semana

Escolha uma pessoa de outra área de quem o seu projeto vai depender nos próximos meses e com quem você ainda não tem relação. Até sexta-feira, convide essa pessoa para uma conversa de quinze minutos com um único objetivo: entender o que está difícil para a área dela agora.

Perguntas frequentes

Construir aliados no trabalho é o mesmo que fazer networking?

Tem relação, mas não é a mesma coisa. Networking costuma ser amplo e voltado a conhecer pessoas. Construir aliados é mais focado: são relações de confiança mútua com pessoas que influenciam o seu trabalho, cultivadas com ajuda real e não só com contato social.

Como me aproximar de alguém de outra área sem parecer interesseiro?

Comece oferecendo algo útil ou demonstrando interesse genuíno pelo trabalho da pessoa, sem pedir nada em troca naquele momento. Perguntas sobre os desafios da área dela, uma informação relevante compartilhada ou um convite para opinar em algo que a afeta são bons começos.

E se eu sou introvertido e não gosto de cafés e conversas informais?

Aliança não depende de ser sociável. Depende de confiabilidade e de interesse genuíno pelo outro. Você pode construir relações em conversas individuais curtas e objetivas, cumprindo compromissos e ajudando de forma concreta, sem precisar de eventos sociais.

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