Quando o executivo pergunta algo que você não sabe
A pergunta veio do diretor, na frente de todos, e você não sabe a resposta. Veja como responder com honestidade, sem travar e sem inventar.
Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em
Reunião mensal do comitê. Você está na terceira página da apresentação quando o diretor financeiro pergunta: "Quanto disso já foi pago ao fornecedor até agora?". Você não sabe. O controle financeiro é feito por outra área, e você nunca precisou desse número de cabeça.
Por dois segundos, a sala fica em silêncio. Você sente o rosto esquentar. Na cabeça, duas opções aparecem: chutar um valor que pareça razoável ou admitir que não sabe e parecer despreparado na frente do seu sponsor e de três diretores. Nenhuma das duas parece boa.
O que está em jogo nesses dois segundos
A forma como você responde a uma pergunta que não sabe diz mais sobre você do que a maioria das respostas que você sabe. O executivo está avaliando, mesmo sem perceber, se pode confiar no que você diz.
Se você inventa e acerta, ganha pouco. Se inventa e erra, perde muito: a partir daí, todo número que você trouxer vai ser questionado. Se você trava, transmite insegurança. Se você responde bem, mesmo sem a resposta, mostra que sabe a diferença entre o que sabe e o que não sabe, o que é uma qualidade rara e valorizada.
Por que a vontade de improvisar é tão forte
A pressão vem de vários lugares. Existe a ideia de que o gerente de projetos deve saber tudo sobre o projeto. Existe o medo de que admitir uma lacuna seja interpretado como falta de controle. Existe a presença de pessoas com poder sobre a sua carreira. E existe a própria pressão do momento: o silêncio parece longo demais.
Quem está no começo da carreira em gestão sente isso com mais força. Muitas vezes vem de uma função técnica, em que saber a resposta era o principal valor. Ao virar GP, a expectativa muda: ninguém sabe tudo, e o valor está em saber onde buscar, mas a sensação de que "deveria saber" continua.
Do lado do executivo, a pergunta raramente é uma armadilha. Ele precisa da informação para uma decisão ou para responder a alguém acima. O que ele quer, acima de tudo, é uma informação confiável. Se ela vier agora ou amanhã, faz menos diferença do que parece. Entender essa lógica é parte do relacionamento com executivos.
Chutar, travar ou se justificar
Três reações aparecem com frequência e todas pioram a situação.
Chutar: dar um número ou uma resposta que parece plausível. O risco é alto, porque o executivo pode usar essa informação em outra reunião, e o erro volta multiplicado.
Travar: ficar em silêncio, gaguejar, procurar desesperadamente no notebook. Isso transmite que você foi pego de surpresa, o que é verdade, mas não precisa ser o centro da cena.
Justificar demais: explicar longamente por que você não sabe, quem deveria ter passado a informação, como o sistema não ajuda. Isso transforma uma lacuna pequena em um problema grande e soa como defensividade. O padrão é parecido com o descrito em pessoa na defensiva quando cobrada, só que agora com você no centro.
A resposta em três partes
Uma estrutura simples ajuda a responder com calma:
- Diga com clareza que não tem a informação agora. Sem pedir desculpas em excesso. "Não tenho esse número exato aqui."
- Compartilhe o que você sabe que é relevante. "Sei que as duas primeiras parcelas foram liberadas, a terceira depende do aceite da entrega de março."
- Comprometa-se com prazo e cumpra. "Confirmo o valor exato com o financeiro e te mando até amanhã às 10h."
Depois, cumpra o prazo. Se puder, antecipe. A resposta que chega antes do combinado transforma um momento desconfortável em uma demonstração de confiabilidade.
Quando a situação é diferente
Se for algo que você deveria saber, como o prazo de um marco do seu próprio projeto, reconheça brevemente ("esse eu deveria ter na ponta da língua") e traga a resposta o mais rápido possível, se puder ainda durante a reunião. Depois, entenda por que você não sabia. O artigo sobre como assumir um erro no projeto ajuda nos casos em que a lacuna é um erro de acompanhamento.
Se alguém na sala souber, você pode passar a palavra: "A Carla acompanha isso de perto, Carla, você tem esse número?". Faça isso com naturalidade, sem parecer que está empurrando a responsabilidade.
Se você tiver uma estimativa razoável, pode oferecê-la, deixando claro que é estimativa e qual a base: "Pela última medição, deve estar em torno disso, mas confirmo até amanhã".
Se a pergunta for sobre algo fora do escopo do projeto, diga isso de forma respeitosa e ofereça ajudar a encontrar a resposta com quem sabe.
Se nada disso se aplicar e a pergunta revelar um problema real que você não conhecia, não minimize. "Não sabia disso, e é algo que preciso entender. Vou investigar e trago o que encontrar até quinta."
Frases para usar no momento
"Não tenho esse valor exato agora. O que sei é que as duas primeiras parcelas já foram pagas. Confirmo o total com o financeiro e te mando até amanhã de manhã."
"Boa pergunta, e não quero te dar um número errado. Volto com isso ainda hoje."
"Esse ponto eu deveria ter trazido. Me dá até o fim do dia que te mando a resposta."
"Não sei, e não sei se alguém no projeto sabe. Vou levantar e te digo na quinta o que descobri."
Como saber se você respondeu bem
Sinais de que a resposta funcionou: o executivo aceita o prazo e passa ao próximo ponto. Quando você manda a informação, ele agradece ou usa a resposta. Nas reuniões seguintes, ele continua fazendo perguntas diretas a você, o que indica que confia no que você traz.
Sinais de alerta: ele começa a perguntar as mesmas coisas a outras pessoas. Há perguntas repetidas sobre temas que você deveria dominar. Nesses casos, o problema pode estar na preparação. Antes de reuniões com executivos, liste as dez perguntas mais prováveis e garanta que tem resposta para as principais. O artigo sobre reunião de 15 minutos com o diretor ajuda nessa preparação, e um status report bem mantido deixa os números principais sempre à mão.
O número que não estava na apresentação
Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Thiago foi promovido a gerente de projetos há quatro meses em uma empresa de saneamento. Conduz a modernização das estações de bombeamento. Na reunião trimestral, a diretora de operações pergunta quantas estações já estão funcionando com o novo sistema de monitoramento.
Thiago sabe o número de estações instaladas, mas não sabe quantas já passaram nos testes e estão operando. Respira e responde: "Instalamos em nove. Quantas já estão em operação plena, eu não tenho certeza agora, porque algumas ainda estão em teste. Confirmo com a equipe de campo e te mando até o fim do dia".
A diretora diz que tudo bem e segue. Às 15h, Thiago manda uma mensagem curta com o número, a lista das estações e uma linha sobre a previsão para as restantes. A diretora responde agradecendo e encaminha a mensagem para o presidente. Na semana seguinte, Thiago inclui no relatório um indicador novo: estações em operação plena.
O que essa situação revela sobre você
Saber dizer "não sei" de forma madura é um sinal de segurança, e não de fraqueza. Profissionais inseguros precisam parecer que sabem tudo. Profissionais seguros sabem a diferença entre o que sabem e o que não sabem, e tratam essa diferença com naturalidade.
Para o executivo, isso tem valor prático. Ele precisa de informação confiável para decidir. Um GP que admite lacunas e as fecha rápido é mais útil do que um que responde tudo com a mesma segurança, mesmo quando está chutando. Com o tempo, a confiabilidade vira reputação.
Há ainda um efeito sobre a equipe. Quando o GP admite com tranquilidade que não sabe algo na frente da diretoria, ele mostra a todos que isso é aceitável. Analistas e desenvolvedores passam a dizer "não sei, vou verificar" em vez de esconder dúvidas ou dar respostas incertas como se fossem certas. Um projeto em que as pessoas falam abertamente sobre o que não sabem descobre problemas mais cedo, e isso vale mais do que qualquer resposta pronta numa reunião de comitê.
Checklist para a próxima reunião com executivos
- Listei as perguntas mais prováveis e tenho resposta para as principais.
- Sei quem no projeto tem os dados que eu não tenho de cabeça.
- Tenho uma frase pronta para quando não souber.
- Sei diferenciar o que é fato, o que é estimativa e o que não sei.
- Anoto toda pergunta que fico de responder, com prazo.
- Respondo as pendências antes do prazo combinado sempre que possível.
Antes da próxima pergunta difícil
Escreva agora a sua frase para quando não souber a resposta, no seu jeito de falar. Leia em voz alta duas ou três vezes. Ter a frase pronta reduz muito a chance de travar.
Depois, pense na última pergunta que você não soube responder e verifique se a resposta já foi enviada. Se não foi, envie hoje.
Perguntas frequentes
Dizer que não sei pega mal com o executivo?
Dizer apenas não sei, sem mais nada, pode pegar mal. Dizer que não tem a informação agora, explicar o que já sabe e combinar quando vai trazer a resposta costuma ser bem recebido. O que mais prejudica a credibilidade é inventar uma resposta e depois ter de corrigi-la.
O que fazer se eu deveria saber a resposta?
Reconheça de forma breve, sem se justificar demais, e traga a resposta rapidamente. Depois, entenda por que você não sabia e ajuste sua preparação. Se a pergunta revelar uma lacuna no acompanhamento do projeto, corrija a lacuna, não só a resposta.
Posso estimar uma resposta na hora?
Pode, desde que deixe claro que é uma estimativa e qual a base dela. Algo como: pelo que vi semana passada, acredito que seja em torno disso, mas confirmo até amanhã. Nunca apresente estimativa como fato.
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