Vieses que distorcem as decisões do gerente de projetos
As decisões mais enviesadas são as que parecem mais lógicas. Veja como reconhecer os atalhos mentais que mais pesam nas escolhas do GP e o que fazer a respeito.
Por Sergio Torres 10 min de leitura Atualizado em
A estimativa da equipe era de quatro meses. Você revisou, cortou algumas folgas que pareciam exageradas e levou três meses e meio ao sponsor, que já tinha mencionado no corredor que "isso dá para fazer em três". Na apresentação, a data final ficou em três meses e meio, todos concordaram e a reunião acabou cedo. Pareceu uma decisão sensata, fundamentada, com números.
Seis meses depois, o projeto ainda não tinha terminado. Olhando para trás, cada passo daquela decisão parecia razoável. O problema é que vários atalhos mentais estavam agindo ao mesmo tempo, e nenhum deles se apresentou com nome.
Decisões que parecem racionais e não são
Vieses cognitivos são atalhos que o cérebro usa para decidir rápido. Na maior parte do tempo, eles ajudam. Em projetos, onde as decisões envolvem incerteza, pressão e pessoas com interesses diferentes, eles costumam empurrar as escolhas sempre na mesma direção: prazos otimistas, riscos subestimados, insistência em caminhos que já se mostraram ruins.
O que torna esses vieses perigosos é que eles não parecem erros. Uma decisão enviesada chega acompanhada de argumentos, números e consenso. É por isso que conhecer os vieses ajuda pouco se não vier junto de práticas que os coloquem à prova antes de a decisão ser tomada.
O que torna o GP especialmente vulnerável
Algumas características do trabalho de gerência de projetos favorecem os vieses. O GP costuma estar emocionalmente ligado ao projeto, o que dificulta enxergar sinais ruins. Ele trabalha sob pressão de prazo, e decisões rápidas dependem mais de atalhos. E opera num ambiente em que demonstrar confiança é valorizado, enquanto expressar dúvida pode soar como fraqueza.
Há também o contexto organizacional. Quando a cultura premia quem promete datas ousadas e pune quem traz más notícias, os vieses deixam de ser só individuais e passam a ser incentivados. Um GP que estima com realismo pode ser visto como pessimista, e quem estima com otimismo é aplaudido até o projeto atrasar.
Os atalhos mais comuns e como aparecem no projeto
Confirmação: procurar o que já se acredita
O viés de confirmação leva a dar mais peso às informações que confirmam o que você já pensa e a descartar as que contradizem. No projeto, aparece quando o GP que escolheu um fornecedor passa a notar só as entregas boas dele, ou quando a equipe que acredita numa arquitetura interpreta todo problema como detalhe de implementação.
Custo afundado: insistir pelo que já foi gasto
O custo afundado é o apego ao que já foi investido, que não volta em nenhum cenário. Ele está por trás de muitos projetos que continuam muito depois de terem perdido o sentido, e precisa ser posto de lado na hora de decidir se é melhor cancelar, pausar ou insistir em um projeto em crise.
Otimismo no planejamento: imaginar só o cenário bom
Ao estimar, a tendência é imaginar a sequência em que tudo dá certo e tratar imprevistos como exceções. Só que, em projetos, imprevistos são a regra. Esse viés é reforçado quando a estimativa é feita por quem vai executar e quer mostrar capacidade.
Ancoragem: a primeira data vira referência
O primeiro número mencionado numa discussão puxa todos os seguintes para perto dele. No exemplo de abertura, o "dá para fazer em três" do sponsor virou âncora. A estimativa de quatro meses foi ajustada na direção dela, sem que ninguém percebesse.
Pensamento de grupo: concordar para não destoar
Em equipes coesas ou com uma liderança forte, a busca por harmonia faz as pessoas guardarem as dúvidas. A reunião termina com consenso aparente, mas o consenso é na verdade silêncio. Isso costuma andar junto com a falta de espaço para discordar.
Status quo: manter porque sempre foi assim
A tendência a preferir o caminho atual, mesmo quando outro seria melhor, porque mudar exige esforço e exposição. Aparece em processos, ferramentas e fornecedores que ninguém questiona há anos.
Por que só conhecer os vieses não basta
O erro comum é achar que saber da existência dos vieses protege contra eles. Não protege. Pessoas que conhecem bem esses conceitos continuam sujeitas a eles, e às vezes ficam até mais confiantes nas próprias decisões porque acreditam estar imunes.
Outro erro é usar os vieses como arma em discussões. Dizer a um colega "isso é viés de confirmação" raramente muda a opinião dele, e costuma colocá-lo na defensiva. Vieses são mais bem tratados com processo do que com acusação.
Práticas que reduzem o efeito dos vieses
O antídoto mais eficaz não é pensar melhor sozinho, é criar momentos em que a decisão seja contestada antes de ser tomada. Algumas práticas simples ajudam:
- Defina critérios antes de ver as opções. Isso dificulta que a preferência inicial molde a avaliação.
- Estime antes de ouvir a data desejada. Peça estimativas independentes à equipe antes de qualquer número ser mencionado por quem tem poder.
- Compare com projetos parecidos. Em vez de estimar do zero, pergunte quanto levaram projetos semelhantes na organização, usando a linha de base e o realizado deles.
- Faça o exercício do fracasso antecipado. Peça à equipe que suponha que o projeto falhou e liste as causas mais prováveis. Isso dá permissão para falar de riscos sem parecer pessimista.
- Nomeie alguém para discordar. Em decisões importantes, peça explicitamente a uma pessoa que defenda a opção contrária.
- Pergunte se começaria de novo. Para projetos em andamento, a pergunta neutraliza o peso do que já foi gasto.
As situações pedem ajustes diferentes. Se a decisão envolver uma data já mencionada por alguém com poder, registre a estimativa da equipe antes de discutir a data, e mostre a diferença de forma explícita; o texto sobre prazo impossível imposto ajuda nessa conversa. Se a equipe estiver concordando rápido demais, peça que cada pessoa escreva sua opinião antes de abrir a discussão. Se você perceber que está procurando dados só para confirmar uma escolha, inverta: procure ativamente o melhor argumento contra ela. E se o excesso de cuidado com vieses estiver travando a decisão, lembre-se de que a dúvida infinita também é um problema, conhecido como paralisia por análise.
Perguntas para fazer em voz alta
"Antes de olharmos a data que o cliente pediu, quero que cada um escreva quanto acha que essa fase leva. Depois comparamos."
"Vamos supor que daqui a seis meses o projeto tenha dado errado. Qual seria o motivo mais provável?"
"Tenho uma preferência por essa opção, então quero que alguém me convença do contrário. Quem topa defender a outra?"
"Se não tivéssemos gastado nada até aqui, escolheríamos esse caminho hoje?"
Sinais de que um viés pode estar agindo
Alguns sinais aparecem com frequência. Todas as informações novas parecem confirmar a decisão já tomada. Ninguém na reunião discorda de nada. As estimativas ficam sempre próximas da primeira data mencionada. A justificativa para continuar é sempre o que já foi feito, e não o que ainda pode ser obtido.
Do lado positivo, você sabe que as práticas estão funcionando quando as discordâncias aparecem cedo, nas reuniões, e não depois, no corredor. Quando as estimativas passam a ser comparadas com o realizado e ajustadas a cada ciclo. E quando decisões são revistas sem drama diante de fatos novos.
Exemplo: a estimativa que ninguém quis questionar
Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Helena era gerente de programa em uma empresa de telecomunicações e precisava estimar a migração da base de clientes para uma nova plataforma de faturamento. Na primeira reunião, o diretor comercial comentou que a concorrência fazia migrações parecidas "em um trimestre". A equipe técnica, em seguida, apresentou uma estimativa de quatro meses.
Helena percebeu a âncora. Em vez de discutir a data, pediu que três líderes técnicos estimassem separadamente, sem conversar entre si, e que comparassem com a última migração feita pela empresa, cujo realizado estava no registro do PMO. As estimativas independentes variaram de cinco a sete meses. A migração anterior, de escopo menor, tinha levado seis.
Antes de levar o número ao diretor, Helena fez com a equipe o exercício do fracasso antecipado. Apareceram dois riscos que ninguém tinha mencionado: a qualidade dos dados cadastrais e a disponibilidade da equipe de atendimento para testes. Ela apresentou ao diretor uma estimativa de seis meses, mostrou como chegou ao número e propôs uma fase inicial de dois meses para validar os dados, com revisão da estimativa ao final dela. O diretor não ficou satisfeito com a data, mas aceitou o caminho, porque o raciocínio estava exposto.
Maturidade é desconfiar das próprias certezas
Quanto mais experiente o GP, maior a tentação de confiar na própria intuição. A experiência ajuda, mas também cria atalhos próprios, baseados em projetos passados que podem não se parecer com o atual. Profissionais maduros mantêm a intuição, mas criam mecanismos para testá-la.
No nível de programas e portfólio, isso ganha peso. Decisões enviesadas em escala afetam muitas pessoas e muito dinheiro. Criar uma cultura em que discordar é bem-vindo e estimativas são comparadas com o realizado é uma contribuição que vai além de qualquer projeto. Um bom lugar para começar é olhar com honestidade para o passado, com um roteiro para aprender com o último projeto difícil. O raciocínio completo sobre como decidir bem está no guia de tomada de decisão em projetos.
Checklist para a próxima decisão importante
- Defini os critérios antes de avaliar as opções.
- Coletei estimativas independentes antes de mencionar qualquer data.
- Comparei a estimativa com projetos semelhantes já realizados.
- Fiz o exercício do fracasso antecipado com a equipe.
- Pedi a alguém que defendesse a opção contrária.
- Verifiquei se o argumento para continuar se baseia no futuro, não no passado.
- Registrei o raciocínio para comparar depois com o resultado.
Uma prática para começar já
Na próxima reunião em que alguma estimativa for discutida, peça que cada pessoa escreva o próprio número antes de qualquer um falar. Só isso já reduz a força da âncora e revela divergências que normalmente ficariam escondidas.
E na próxima decisão importante que você estiver inclinado a tomar, procure deliberadamente o melhor argumento contra ela. Se ele não mudar sua escolha, você decide com mais segurança. Se mudar, o exercício valeu a pena.
Perguntas frequentes
Dá para eliminar os vieses cognitivos nas decisões?
Não por completo. Vieses são atalhos naturais do pensamento e afetam todo mundo, inclusive quem os conhece bem. O que dá para fazer é criar práticas que reduzam o efeito deles nas decisões importantes, como definir critérios antes, ouvir quem discorda e revisar estimativas com dados de projetos anteriores.
Qual viés mais afeta as estimativas de prazo?
O otimismo no planejamento costuma ser o mais presente: a tendência de imaginar o cenário em que tudo corre bem e subestimar imprevistos. A ancoragem também pesa, quando a primeira data mencionada, muitas vezes por alguém com poder, vira referência para todas as estimativas seguintes.
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