Como conectar o seu projeto à estratégia da empresa em uma página
Alguém da diretoria pergunta, no elevador, para que serve o seu projeto. Você responde com o escopo. Ele acena e muda de assunto. Existe uma resposta melhor, e ela cabe em uma página.
Por Sergio Torres 8 min de leitura Atualizado em
"E esse seu projeto, serve para quê?"
A pergunta veio do diretor financeiro, no café, sem intenção de cobrar nada. Você respondeu que era a integração do sistema de estoque com o de vendas, que estava na fase de testes e que a virada seria no mês seguinte. Ele acenou com educação e mudou de assunto.
No caminho de volta para a mesa, você percebeu que tinha descrito o que o projeto faz, não por que ele existe. E que, se fosse pressionado, talvez não soubesse dizer com segurança qual meta da empresa dependia daquilo.
Por que essa resposta importa mais do que parece
A capacidade de explicar o motivo do projeto em termos de negócio decide muita coisa. Ela pesa quando há corte de orçamento e a diretoria escolhe o que mantém. Pesa quando dois projetos disputam as mesmas pessoas. Pesa na hora de convencer uma área a liberar alguém, a mudar um processo, a aceitar uma data.
Um projeto que não consegue se explicar fica vulnerável. Não porque seja ruim, mas porque, diante de escolhas difíceis, quem decide protege o que entende. E um GP que não sabe explicar o porquê do próprio projeto fica de fora das conversas em que esse porquê é discutido.
Por que tantos projetos perdem o fio
Projetos nascem ligados a algum motivo. Com o tempo, esse motivo vai ficando para trás.
O termo de abertura é escrito às pressas, muitas vezes copiando a proposta comercial ou a descrição técnica. O motivo de negócio aparece em uma linha genérica ("aumentar a eficiência", "melhorar a experiência do cliente") que não ajuda ninguém a decidir nada.
O GP chega depois da aprovação e herda o projeto já definido. Ninguém explica a conversa que levou à decisão, e ele começa a trabalhar a partir do escopo.
A estratégia da empresa está em uma apresentação anual, cheia de termos amplos, que parece distante do dia a dia. Ligar os dois exige um esforço de tradução que ninguém pediu.
E a rotina empurra para o operacional. Com a semana tomada por reuniões de acompanhamento, sobra pouco tempo para pensar no porquê. É mais urgente saber se o teste passou.
O atalho que não serve
Diante dessa lacuna, muitos GPs fazem uma ligação cosmética: copiam um objetivo estratégico do planejamento da empresa e colam no status report. "Este projeto contribui para o pilar de excelência operacional." Isso não convence ninguém, porque não explica como.
O outro atalho é inventar uma ligação mais forte do que a real, prometendo efeitos que o projeto não tem como produzir. Funciona até alguém perguntar como aquilo será medido.
A ligação útil é específica, honesta e verificável. E ela precisa ser validada por quem decide.
A página, bloco por bloco
Uma página de alinhamento estratégico pode ter cinco blocos. Escreva cada um em poucas linhas.
O problema de negócio. Qual situação, hoje, custa algo para a empresa: dinheiro, tempo, clientes, risco, reputação? Escreva sem jargão técnico. "O comercial vende produtos que não estão em estoque, e parte dos pedidos é cancelada depois de confirmada."
O objetivo da empresa ao qual o projeto se liga. Procure no planejamento estratégico, nos OKRs da área ou nas metas do sponsor. Cite o objetivo real, com o nome que a empresa usa. Se não encontrar, o roteiro para ler o planejamento estratégico ajuda.
O que muda se o projeto der certo. Descreva a situação depois, em termos observáveis: pedidos não são mais cancelados por falta de produto; o vendedor vê o estoque real na hora da venda.
Como saberemos. Um ou dois indicadores que a empresa já acompanha, ou que seriam fáceis de acompanhar, e quem olha para eles. Prefira KPIs que a área já conhece a criar indicadores novos.
O que acontece se o projeto não for feito, ou for adiado. Essa linha costuma ser a mais reveladora, porque mostra a urgência real.
Com a página escrita, leve-a ao sponsor. Uma conversa curta, de vinte a trinta minutos, preparada com a pauta de reunião com o sponsor. O objetivo é validar, não apresentar.
Quando a validação traz surpresas
A conversa com o sponsor pode ir por caminhos diferentes. Esteja pronto para cada um.
Se o sponsor concorda com a página, ótimo. Peça permissão para usá-la nas comunicações do projeto e com as áreas envolvidas. Ela vira a sua resposta padrão para a pergunta do café.
Se ele corrige o motivo (o projeto existe por outro motivo, mais político ou mais urgente do que você imaginava), aceite a correção sem constrangimento. Você acabou de aprender algo importante sobre o que precisa proteger. Ajuste a página e reveja se as prioridades do projeto continuam fazendo sentido.
Se o sponsor não sabe dizer, ou responde de forma vaga, talvez a decisão tenha sido tomada por outra pessoa. Pergunte quem participou da aprovação e se vale conversar com ela. O artigo sobre mapear quem realmente decide ajuda nesse passo.
Se, depois de tudo, o projeto não se liga a nenhum objetivo identificável, não force uma ligação. Leve a constatação ao sponsor, em particular, com cuidado: o projeto pode estar sustentado por um motivo que não está escrito, ou pode ter perdido o sentido. Os dois casos merecem ser conhecidos.
Como abrir e conduzir a conversa
Para pedir a reunião:
"Queria vinte minutos com você para validar uma página que escrevi sobre por que o projeto existe e o que ele precisa mudar no negócio. Quero ter certeza de que estou priorizando do jeito certo."
Durante a conversa:
"Aqui eu escrevi que o problema principal é o cancelamento de pedidos por falta de estoque. Você enxerga assim, ou tem outra coisa pesando mais?"
Quando a resposta é vaga:
"Entendi. Quem mais participou da decisão de fazer esse projeto? Acho que vale eu ouvir essa pessoa também, para não priorizar errado."
Como perceber que a página está fazendo efeito
Você vai notar a diferença em situações concretas. Quando uma área resiste a liberar alguém, a conversa fica mais fácil porque você explica o impacto no negócio. Quando surge um pedido de mudança, a página ajuda a avaliar se ele serve ao objetivo ou o desvia. Quando o sponsor fala do projeto para a diretoria, ele usa frases parecidas com as suas.
Se a página fica guardada na pasta e ninguém usa, ela ainda não virou ferramenta. Comece a citá-la nos relatórios, nas reuniões de abertura de fase, nas conversas sobre mudança de escopo.
Uma página que mudou uma priorização
Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Luciana gerenciava a renovação do aplicativo de uma rede de academias. O escopo tinha nove funcionalidades. Ela escreveu a página e levou ao sponsor, o diretor de marketing, Eduardo.
No primeiro bloco, Luciana tinha escrito que o problema era a avaliação baixa do aplicativo nas lojas. Eduardo corrigiu: o problema principal era o cancelamento de matrículas nos primeiros meses, e o aplicativo era uma das apostas para manter o aluno engajado. A meta da empresa era retenção, não nota na loja.
Com isso, Luciana revisou a ordem das entregas. As funcionalidades ligadas a acompanhamento de treino e lembretes subiram; as ligadas a visual e loja de produtos desceram. Ela levou a proposta, Eduardo aprovou, e a página passou a abrir todas as reuniões de fase.
O que essa página diz sobre você
Ao escrever e validar essa página, você deixa de ser apenas quem executa o plano e passa a ser quem entende para que o plano existe. É o primeiro passo concreto da visão estratégica para gerentes de projetos.
Há um ganho de proteção também. Quando o projeto for questionado, você não vai depender da memória de ninguém nem da sua capacidade de improvisar no café. A resposta estará escrita, validada e alinhada com quem decide.
Checklist da página de alinhamento
- O problema de negócio está escrito sem jargão técnico.
- O objetivo da empresa citado é real, com o nome usado pela empresa.
- A situação depois está descrita em termos observáveis.
- Há um ou dois indicadores e alguém responsável por olhá-los.
- Está claro o que acontece se o projeto não for feito.
- A página foi validada com o sponsor.
- Combinei quando vamos revisá-la.
Comece pelo primeiro bloco
Hoje, antes de fechar o dia, escreva só o primeiro bloco: o problema de negócio que o seu projeto resolve, em duas ou três linhas, sem nenhuma palavra técnica. Se sair fácil, siga para os outros. Se travar, você já sabe qual pergunta levar ao sponsor nesta semana.
Perguntas frequentes
O que fazer se o meu projeto não parece ligado a nenhum objetivo estratégico?
Primeiro, pergunte ao sponsor; a ligação pode existir e só não estar escrita. Se não existir, o projeto pode atender a uma obrigação legal, a uma necessidade operacional ou a uma decisão política, e isso também é um motivo legítimo. Se não houver motivo nenhum, essa é uma informação valiosa para levar com cuidado a quem decide.
Quem deve validar a página de alinhamento estratégico do projeto?
O sponsor, em primeiro lugar, porque ele responde pelo resultado. Em projetos maiores, vale mostrar também para quem cuida do portfólio ou do planejamento. O objetivo é que a página represente a visão de quem decide, não só a do GP.
Com que frequência devo revisar essa página?
A cada marco importante e sempre que houver mudança de contexto: revisão do planejamento da empresa, troca de sponsor, corte de orçamento. Uma revisão rápida a cada trimestre costuma ser suficiente para projetos longos.
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