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Tomada de decisão

Decidir sozinho ou levar ao sponsor? Um critério simples

Levar tudo ao sponsor cansa e passa insegurança. Decidir tudo sozinho pode custar caro. Veja um critério para separar uma coisa da outra sem adivinhação.

Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em

Na segunda, você levou ao sponsor a escolha do horário das reuniões semanais da equipe. Na quarta, a troca de um desenvolvedor entre duas frentes. Na sexta, perguntou se podia aprovar uma hora extra no fim de semana. Na terceira mensagem, ele respondeu só com "decide aí". Você ficou com a sensação incômoda de estar incomodando.

No mês anterior, aconteceu o oposto. Você aceitou um pedido do cliente para antecipar uma funcionalidade, achando que era um ajuste pequeno, e o sponsor soube pela reunião de diretoria que o escopo tinha mudado. A conversa depois não foi agradável.

Entre levar tudo e não levar nada, existe um critério. E ele não depende de adivinhar o humor do sponsor naquele dia.

O custo de errar para qualquer um dos lados

Escalar demais tem um custo que demora a aparecer. O sponsor começa a ver você como alguém que precisa de supervisão, as decisões ficam paradas esperando resposta e a equipe aprende que o GP não resolve. Em pouco tempo, você é tratado como intermediário, e as pessoas passam a procurar o sponsor diretamente.

Decidir sozinho o que não cabe a você tem custo imediato. O sponsor é surpreendido, se sente desautorizado e, muitas vezes, precisa reverter a decisão na frente de outras pessoas. A confiança cai, e a próxima vez que você quiser autonomia, vai encontrar mais controle.

Por que essa fronteira é tão confusa

Na maioria dos projetos, ninguém define de forma explícita o que o GP pode decidir. O termo de abertura, quando existe, fala de objetivos e orçamento, mas raramente de alçadas. A autoridade formal do GP fica implícita, e cada sponsor tem uma expectativa diferente que só aparece quando é contrariada.

Do lado do GP, há motivações que puxam para os dois lados. Quem está começando costuma escalar por medo de errar ou por querer mostrar que está alinhado. Quem já tem mais experiência às vezes decide sozinho porque acha que o sponsor está ocupado demais, ou porque tem receio de ouvir um "não".

E o sponsor também tem suas razões. Alguns querem participar de tudo porque já foram surpreendidos antes. Outros esperam autonomia total e se irritam com qualquer pergunta. Entender qual é o perfil do seu ajuda, mas não substitui um combinado.

O que costuma dar errado: decidir pela ansiedade

O erro mais comum é decidir pela sensação do momento. Quando a ansiedade está alta, tudo parece importante demais para decidir sozinho. Quando a pressão de prazo aperta, tudo parece pequeno demais para incomodar o sponsor. O critério muda conforme o seu estado emocional, e o sponsor percebe essa inconsistência.

Outro erro é escalar sem preparar. Mandar uma mensagem com "o que você acha?" transfere para o sponsor todo o trabalho de entender o problema, levantar opções e escolher. Mesmo quando a decisão é dele, o trabalho de preparação é seu.

Quatro perguntas para separar o que é seu

A decisão é do sponsor quando muda o que foi combinado com ele ou expõe o negócio a algo que ele precisa saber. Para aplicar isso na prática, faça quatro perguntas:

  1. Muda escopo, prazo final, orçamento ou benefício esperado? Se sim, é do sponsor ou de uma instância acima.
  2. Afeta pessoas ou áreas fora do projeto (outro diretor, o cliente, um contrato)? Se sim, o sponsor precisa ao menos saber antes.
  3. É difícil ou caro de desfazer? Quanto menos reversível, maior a necessidade de envolver quem responde pelo resultado.
  4. Existe risco relevante de reputação, conformidade ou segurança? Se sim, leve, mesmo que pareça pequena.

Se todas as respostas forem não, a decisão é sua. Decida e, quando fizer sentido, apenas informe.

A partir daí, há três caminhos:

  • Se a decisão for claramente sua, decida e registre. Para decisões que o sponsor gostaria de conhecer, inclua no próximo relatório em uma linha.
  • Se a decisão for sua, mas tiver alguma repercussão fora do projeto, decida e comunique antes que ele saiba por outra pessoa. Uma mensagem curta resolve.
  • Se a decisão for do sponsor, prepare: o problema em duas frases, as opções, sua recomendação e a data limite. Levar opções prontas é tão importante quanto levar o tema, e o formato desse material está em como apresentar opções para decisão executiva.
  • Se ficar em dúvida mesmo depois das quatro perguntas, comunique a decisão que pretende tomar e dê um prazo curto para objeção. Isso respeita o sponsor sem travar o projeto.
  • Se o sponsor não responder no prazo e a decisão for urgente, siga com a recomendação, avise que seguiu e registre. Se isso virar padrão, o problema é outro e merece uma conversa sobre a disponibilidade dele.

Combinando alçadas antes do próximo aperto

O critério das quatro perguntas funciona melhor quando vem acompanhado de um combinado explícito. Proponha ao sponsor uma conversa de vinte minutos para definir três categorias: o que você decide sozinho, o que decide e informa e o que precisa da aprovação dele. Exemplos concretos ajudam mais do que regras abstratas.

A matriz de decisão gratuita serve para organizar as opções quando a decisão é dele. Para registrar quem decide o quê de forma permanente, uma matriz RACI com as decisões recorrentes do projeto resolve boa parte das dúvidas futuras.

As frases para cada situação

"Decidi trocar o André da frente de relatórios para a de integração nesta sprint. Não muda prazo nem custo, e te aviso só para você saber se alguém comentar."

"Pretendo aprovar a hora extra do fim de semana para fechar os testes. Se você tiver alguma objeção, me fala até amanhã às dez; senão, sigo."

"Preciso de uma decisão sua até sexta: o cliente pediu para antecipar o módulo de relatórios. Tenho duas opções, com impacto em prazo e custo, e minha recomendação é a segunda."

"Queria combinar com você o que eu decido sozinho e o que você prefere acompanhar. Trouxe uma lista com exemplos para a gente olhar junto."

Sinais de que você calibrou bem

O sinal mais claro é a frequência das respostas curtas do sponsor. Se ele responde "ok" ou "boa" às suas comunicações e só se envolve de verdade nas decisões que você leva como dele, a calibragem está boa. Outro sinal é ele não ser surpreendido por outras pessoas com informações sobre o projeto.

Sinais de que precisa ajustar: ele reclama de ser acionado à toa, ou, ao contrário, pergunta "por que eu não sabia disso?". Ambos indicam que vale revisar o combinado. Se as decisões que você leva ficam paradas por semanas, o tema muda: aí a questão é a disponibilidade do sponsor, e talvez seja o momento de escalar sem queimar pontes.

Exemplo: o pedido do cliente que parecia pequeno

Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Aline estava no primeiro ano como GP em uma empresa de software de gestão para clínicas. Durante a reunião de validação, o cliente pediu para incluir um campo de convênio no cadastro de pacientes. Parecia simples, e Aline já ia dizer que sim.

Antes, ela repassou mentalmente as quatro perguntas. O campo exigia mudar a integração com o sistema de faturamento do cliente, o que afetava outra área. A mudança não era cara de desfazer, mas tinha impacto de prazo de alguns dias. Era, portanto, decisão do sponsor, o diretor de produto, Gustavo.

Aline respondeu ao cliente que levaria o pedido e retornaria em dois dias. Mandou para Gustavo uma mensagem com o pedido, o impacto estimado pela equipe e duas opções: incluir agora, com atraso na entrega da fase, ou incluir na fase seguinte, mantendo a data. Recomendou a segunda. Gustavo concordou e agradeceu por ter sido consultado antes, porque o mesmo cliente estava negociando um aditivo com a área comercial.

Na semana seguinte, Aline usou a situação para propor a conversa sobre alçadas. Saíram dela com uma lista curta: mudanças em funcionalidades sem impacto em prazo ou integração, ela decidia e informava no relatório semanal; qualquer coisa que tocasse integração, contrato ou data, ia para ele com opções.

Decidir no nível certo é sinal de maturidade

Saber o que é seu para decidir é uma das marcas do GP que está crescendo. Não se trata de ter mais ou menos coragem, e sim de entender onde está a responsabilidade por cada resultado. Quem decide no nível certo ganha autonomia aos poucos, porque o sponsor aprende que pode confiar.

Com o tempo, as alçadas tendem a crescer. Decisões que antes iam para o sponsor passam a ficar com você, e você começa a lidar com perguntas mais estratégicas. É um movimento parecido com o de delegar sem perder o controle, só que na direção contrária: aqui é você quem recebe a delegação. O raciocínio de base está no guia de tomada de decisão em projetos, e o escalonamento bem feito é a outra metade da mesma competência.

Checklist antes de mandar a próxima mensagem ao sponsor

  • Verifiquei se a decisão muda escopo, prazo final, orçamento ou benefício.
  • Verifiquei se afeta pessoas ou áreas fora do projeto.
  • Avaliei se é fácil ou difícil de desfazer.
  • Considerei riscos de reputação, conformidade ou segurança.
  • Se é do sponsor, levo opções, recomendação e data limite.
  • Se é minha, decido e registro, informando quando fizer sentido.
  • Tenho um combinado de alçadas com o sponsor, ou já marquei a conversa para criá-lo.

Esta semana

Liste as cinco últimas decisões que você levou ao sponsor e as cinco últimas que tomou sozinho. Passe cada uma pelas quatro perguntas e veja quantas estavam no lugar certo.

Com essa lista em mãos, marque a conversa sobre alçadas. Os exemplos reais vão tornar o combinado mais concreto do que qualquer regra genérica.

Perguntas frequentes

O sponsor reclamou que eu levo decisões demais para ele. O que fazer?

Proponha uma conversa para combinar alçadas: quais tipos de decisão você pode tomar sozinho, quais precisa apenas comunicar e quais exigem a aprovação dele. Registre o combinado e, nas primeiras semanas, envie um resumo curto das decisões que tomou para que ele ganhe confiança.

Decidi algo sozinho e o sponsor não gostou. Como corrigir?

Explique o raciocínio sem se justificar demais, ouça o que o incomodou e pergunte como ele prefere que esse tipo de decisão seja tratado daqui em diante. Se for possível ajustar a decisão, ofereça. O objetivo é sair com uma regra mais clara, não com uma culpa.

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