Pular para o conteúdo
Coaching de Alto Impacto Método Xeque-Mate
Liderança sem autoridade

Equipe matricial não prioriza o seu projeto: o que fazer

A pessoa está alocada no projeto, mas a área de origem sempre vence a disputa pelo tempo dela. Veja como negociar prioridade com quem decide, sem virar inimigo de ninguém.

Por Sergio Torres 10 min de leitura Atualizado em

Na reunião de planejamento, a alocação parecia razoável: Renata, da área de contabilidade, dedicaria parte da semana ao projeto de novo sistema financeiro. Três semanas depois, as tarefas dela estão todas atrasadas. Quando você pergunta, ela responde com sinceridade: fechamento do mês, auditoria, uma demanda urgente da diretora dela. "Assim que acalmar, eu volto para o projeto."

Não vai acalmar. Sempre há um fechamento, uma auditoria, uma urgência. E você percebe que o problema não é a Renata. É que ela tem dois chefes com prioridades diferentes e só um deles avalia o desempenho dela.

Um projeto que sempre fica para depois

Na estrutura matricial, o gerente de projetos coordena o trabalho, mas as pessoas continuam pertencendo às áreas de origem. No papel, a divisão de tempo está clara. Na prática, quando há conflito, a área quase sempre vence, porque é ela que define avaliação, bônus, férias e futuro na empresa.

O custo para o projeto é previsível: atrasos que se acumulam sem um motivo único, tarefas que andam aos solavancos, pessoas que precisam relembrar o contexto a cada vez que voltam. O custo para o GP é a sensação permanente de estar pedindo favor para conseguir o que deveria estar garantido.

E há um custo para as próprias pessoas. Quem está dividida entre dois chefes vive a pressão dos dois lados e, muitas vezes, é cobrada pelos dois pelo mesmo atraso.

Por que a área de origem vence a disputa

Entender a lógica da pessoa alocada ajuda a parar de levar o problema para o lado pessoal. Do ponto de vista de Renata, a escolha é racional. A diretora dela vai avaliá-la no fim do ano. O fechamento do mês tem data fixa e consequência visível se falhar. O projeto, por outro lado, tem um prazo que parece distante e que, se escorregar, a culpa vai se diluir entre muitas pessoas.

O gerente funcional também está respondendo a incentivos. Ele é cobrado pelos resultados da área, não do projeto. Ceder uma pessoa para o projeto é, para ele, um custo com pouco retorno visível. Se o projeto não aparece nas metas dele, é natural que a área tenha precedência sempre que apertar.

Há um terceiro elemento: os acordos de alocação costumam ser vagos. "Parte do tempo" ou "quando possível" não define nada. Sem um combinado concreto, cada semana vira uma nova negociação, e a negociação semanal favorece quem tem a urgência mais visível.

E há a parte do GP. Se você não conversou com o gestor no início, se os pedidos ao projeto chegam sem contexto, ou se o projeto não comunica bem o próprio valor para as áreas envolvidas, fica fácil para todos tratá-lo como opcional.

Pressionar a pessoa errada

O erro mais comum é cobrar a pessoa alocada por uma decisão que não é dela. Renata não escolheu fazer o fechamento em vez do projeto; a diretora dela escolheu. Cobrar Renata gera desgaste, culpa e nenhuma mudança real.

O segundo erro é escalar direto ao sponsor reclamando da área. Isso transforma uma questão de alocação em conflito político e deixa o gestor funcional na defensiva, justamente a pessoa de quem você mais depende.

O terceiro é aceitar em silêncio e compensar sozinho: fazer você mesmo as tarefas da pessoa, ajustar o cronograma toda semana sem registrar o motivo. Quando o atraso aparecer, não haverá nenhum histórico explicando o que aconteceu.

Negociando prioridade com quem decide

O primeiro passo é levar a conversa para o nível certo. Marque uma conversa com o gestor funcional, não para reclamar, mas para entender a realidade da área. Quando são os picos de trabalho? Quais metas pesam mais? Que tipo de pedido do projeto mais atrapalha?

Com isso, proponha um acordo concreto de alocação. Em vez de "parte do tempo", combine dias ou blocos fixos: terças e quintas à tarde, por exemplo. Combine também o que acontece nos picos conhecidos, como o fechamento do mês, e quem decide quando houver conflito que vocês dois não conseguem resolver.

Torne visível o que o projeto entrega para a área. Se o novo sistema financeiro vai reduzir retrabalho na contabilidade, diga isso com clareza ao gestor. Projetos que ajudam a área a cumprir as próprias metas competem melhor por tempo.

Registre o impacto dos desvios. Toda vez que o acordo não for cumprido, anote de forma neutra o que aconteceu e qual foi o efeito no projeto. Esse registro não é para acusar ninguém; é para que a decisão de prioridade, quando subir, seja tomada com fatos.

Daí em diante, as ramificações. Se o gestor aceita o acordo e ele é cumprido, mantenha o relacionamento com conversas curtas e regulares e avise com antecedência sobre picos do projeto. Se o gestor aceita, mas a área continua puxando a pessoa, leve o registro de impacto a ele e pergunte como ajustar; às vezes o acordo precisa ser refeito, às vezes ele mesmo não tinha percebido. Se o gestor não aceita nenhum acordo porque a área realmente não comporta, o conflito é de prioridade entre área e projeto, e quem resolve isso está acima de vocês dois.

Nesse caso, leve a questão ao sponsor como decisão, não como reclamação: duas opções, o impacto de cada uma e uma recomendação. Avise o gestor antes, de preferência convidando-o para a conversa. Em empresas com gestão de portfólio, essa decisão pode estar em um fórum próprio; vale entender como funciona a priorização do portfólio de projetos na sua organização.

Frases para as conversas de alocação

"Quero entender a realidade da sua área antes de pedir qualquer coisa. Quando são os picos e o que não pode atrasar de jeito nenhum?"

"Em vez de dividir o tempo da Renata de forma vaga, podemos fixar terça e quinta à tarde para o projeto e deixar a semana do fechamento livre?"

"Nas últimas três semanas, as tarefas do projeto atrasaram por demandas da área. Não estou reclamando, quero decidir com você como ajustar."

"A gente não está conseguindo conciliar. Proponho levar ao sponsor as duas opções, com o impacto de cada uma, e você vem junto. Faz sentido?"

Sinais de que o acordo está funcionando

As tarefas da pessoa alocada passam a andar em ritmo regular, mesmo que mais devagar do que você gostaria. O gestor funcional avisa com antecedência quando vai precisar dela para alguma demanda da área. A própria pessoa deixa de pedir desculpas o tempo todo, porque sabe exatamente quando está no projeto e quando não está.

Sinal de alerta: se o acordo é refeito toda semana, ele não é um acordo. Se o gestor concorda com tudo e nada muda, o problema pode estar acima dele, em metas da área que não deixam espaço para o projeto. E se a área passa a retirar a pessoa sem aviso, o cenário mudou, como descrito em gestor funcional retira recursos do projeto.

Terça e quinta à tarde

Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Gustavo conduzia a implantação de um sistema financeiro em uma indústria de embalagens. Dependia de duas analistas da contabilidade, que estavam sempre atrasadas nas tarefas do projeto. Ele vinha cobrando as duas diretamente, e a relação estava azedando.

Gustavo mudou o alvo da conversa. Marcou meia hora com a gerente de contabilidade e começou perguntando sobre o calendário da área. Descobriu que a primeira semana de cada mês era intocável e que, fora dela, havia mais folga do que ele imaginava. Propôs: "Terças e quintas à tarde para o projeto, exceto na semana do fechamento. Se surgir algo urgente fora disso, você me avisa e a gente decide junto".

A gerente aceitou. Em um dos meses seguintes, uma auditoria inesperada consumiu as duas analistas por duas semanas. Gustavo registrou o impacto no cronograma, conversou com a gerente e, como não havia como absorver, levou ao sponsor duas opções: aceitar o atraso de um marco ou trazer apoio temporário de outra área. A gerente participou da conversa. O sponsor escolheu o apoio temporário, e ninguém saiu da reunião como culpado.

O que esse conflito ensina sobre organizações

O conflito entre área e projeto não é defeito de pessoas, é característica da estrutura. Empresas matriciais escolhem conscientemente dividir as pessoas entre áreas e projetos, e essa escolha cria disputa por tempo. O papel do GP não é eliminar a disputa, é torná-la explícita para que seja resolvida por quem tem autoridade para isso.

GPs que entendem isso deixam de se sentir vítimas da estrutura e passam a trabalhar com ela. Constroem relações com gestores funcionais, levam decisões ao nível certo e fazem o projeto competir por prioridade de forma transparente. Essa é uma das bases da liderança sem autoridade formal. Quando o atraso é de uma pessoa específica com tempo combinado, a conversa muda e se aproxima do que está em como cobrar entregas de quem não é seu subordinado. E toda conversa de alocação é, no fundo, uma negociação, tema do artigo sobre negociação para gerentes de projetos.

Checklist para destravar a alocação

  • Conversei com o gestor funcional, e não só com a pessoa alocada.
  • Conheço os picos de trabalho e as metas que mais pesam na área.
  • O acordo de alocação define dias ou blocos concretos, não percentuais vagos.
  • Está combinado o que acontece nos picos e quem decide nos conflitos.
  • O gestor sabe o que o projeto entrega para a área dele.
  • Registro de forma neutra o impacto de cada desvio do acordo.
  • Se o conflito subir, levo opções e recomendação, com o gestor junto.

O próximo passo é com o gestor

Identifique a pessoa alocada cujo atraso mais afeta o seu projeto hoje. Em vez de cobrá-la de novo, marque uma conversa de trinta minutos com o gestor dela nesta semana, com a pauta de entender a área e propor um acordo concreto.

Se a conversa não resolver e o tema precisar subir, prepare a reunião com o sponsor usando a pauta de reunião com o sponsor, que organiza contexto, opções e a decisão que você precisa dele.

Perguntas frequentes

Quem decide a prioridade de uma pessoa alocada parcialmente em um projeto?

Em geral, o gestor funcional dessa pessoa, que responde pelo desempenho dela e pelas metas da área. Por isso a negociação de prioridade precisa envolver esse gestor, e não só a pessoa. Quando gestor e projeto não chegam a acordo, a decisão sobe para quem define as prioridades entre área e projeto, normalmente o sponsor ou um comitê.

Devo cobrar a pessoa ou o gestor dela quando o projeto atrasa?

Depende do motivo. Se a pessoa tinha tempo combinado e não usou, a conversa é com ela. Se ela foi puxada para demandas da área, a conversa é com o gestor, porque é ele quem decide para onde vai o tempo. Cobrar a pessoa por uma decisão que não é dela só gera desgaste.

Como evitar que o problema de prioridade se repita a cada semana?

Feche acordos explícitos de alocação com os gestores no início do projeto, com dias ou blocos de tempo definidos em vez de percentuais vagos. Combine também como conflitos serão resolvidos e por quem. Revise esses acordos em momentos de pico, antes que o conflito apareça.

Modelo gratuito

Pauta de reunião com o sponsor

Leve ao sponsor uma pauta de decisões, com opções e sua recomendação, em vez de um relatório de status. Para imprimir ou salvar em PDF, sem cadastro.

Abrir o modelo

Pratique

Só mais uma tela

Se você fosse o Thiago, como responderia ao pedido da Luciana?

Responder o caso

Receba um tema prático como este toda semana

Diário do Gerente de Projetos: uma jornada de 50 semanas, gratuita, 1 e-mail por semana.

Continue aprendendo

Sua privacidade

Usamos cookies necessários para o site funcionar. Com sua permissão, também usamos cookies de medição (Google Analytics e PostHog) para entender o que ajuda mais você. Saiba mais.