Matriz RACI na prática: exemplo e erros que travam o projeto
Todo mundo achava que outra pessoa ia aprovar, e a entrega ficou parada uma semana. Veja como usar a matriz RACI para que isso não se repita.
Por Sergio Torres 9 min de leitura
O documento de requisitos ficou pronto na terça. O analista mandou para a coordenadora de operações, que encaminhou para o gerente da área, que respondeu "ok da minha parte" e copiou a TI. A TI esperou o aceite formal do negócio. O negócio achava que o "ok" já era o aceite. Na terça seguinte, você descobre na reunião de status que o desenvolvimento ainda não começou.
Ninguém fez nada errado, no sentido estrito. Cada pessoa agiu de acordo com o que achava ser o seu papel. O problema é que cada uma tinha uma ideia diferente desse papel, e ninguém tinha escrito isso em lugar nenhum.
Quando todo mundo participa e ninguém responde
Projetos com várias áreas criam uma zona cinzenta de responsabilidade. Muitas pessoas contribuem para uma entrega, mas não fica claro quem executa, quem aprova, quem precisa opinar antes e quem só precisa saber depois. Nessa zona, as entregas param nos intervalos entre uma pessoa e outra.
O custo não aparece como um grande erro, e sim como atrasos pequenos e repetidos: uma semana esperando aprovação, retrabalho porque alguém que deveria ter sido consultado não foi, conflito porque uma área se sentiu atropelada. Somados, esses intervalos consomem boa parte da folga do cronograma. E consomem a sua paciência, porque você passa o dia empurrando coisas que deveriam andar sozinhas.
Por que os papéis ficam implícitos
Em estruturas matriciais, as pessoas trabalham no projeto mas respondem a outro chefe. Ninguém quer assumir formalmente uma aprovação que pode dar errado, e ninguém quer ser deixado de fora de uma decisão que afeta sua área. O resultado é um comportamento defensivo compreensível: dizer "ok da minha parte" sem dizer "está aprovado".
Há também a questão de status. Ser consultado dá sensação de importância, então muita gente pede para ser incluída em tudo. Ser aprovador traz risco, então muita gente evita. E o GP, querendo evitar atrito no começo, aceita essa ambiguidade porque definir papéis parece uma conversa desconfortável, quase burocrática.
A parte do GP nesse padrão costuma ser a pressa. É mais rápido começar a trabalhar do que sentar com as áreas para combinar quem faz o quê. A conta chega depois.
Os quatro papéis da matriz RACI
A matriz RACI é uma tabela simples: nas linhas, as entregas ou decisões; nas colunas, os papéis ou as pessoas; nas células, uma letra.
- R (Responsável): quem executa o trabalho. Pode haver mais de um R, mas é bom ter um principal.
- A (Aprovador, ou quem responde pelo resultado): quem dá a palavra final e responde se a entrega não sair. Deve haver um único A por linha.
- C (Consultado): quem precisa opinar antes da entrega ser concluída. A comunicação é de mão dupla.
- I (Informado): quem precisa saber do resultado depois. A comunicação é de mão única.
Veja um exemplo ilustrativo de um projeto fictício de implantação de um novo processo de compras em uma empresa de serviços:
| Entrega ou decisão | GP | Analista de processos | Gerente de compras | Jurídico | TI | Diretor financeiro (sponsor) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Mapeamento do processo atual | A | R | C | I | I | I |
| Desenho do novo processo | A | R | C | C | C | I |
| Aprovação do novo processo | R | C | A | C | I | I |
| Ajuste das cláusulas de contrato com fornecedores | I | C | C | R/A | I | I |
| Configuração do sistema | C | C | I | I | R/A | I |
| Mudança de orçamento acima do previsto | R | I | C | I | I | A |
| Comunicação do novo processo às áreas | R/A | C | C | I | I | I |
Repare em três detalhes. O aprovador do novo processo é o gerente de compras, porque é ele quem vai operar com o resultado, e não o GP. O jurídico aparece como R/A só na linha em que é dono da entrega. E o sponsor só é A em decisões que ultrapassam a autonomia do projeto, como orçamento.
Os erros que travam o projeto mesmo com a matriz pronta
O erro mais comum é a matriz feita pelo GP sozinho e enviada por e-mail. As pessoas não leem, ou leem e discordam em silêncio. Uma RACI só vale quando os nomes que estão nela concordaram com as letras.
Outros erros aparecem com frequência:
- Dois A na mesma linha. Cada aprovador espera o outro, ou eles discordam e a entrega para.
- C demais. Quando todo mundo é consultado, cada entrega vira uma rodada longa de opiniões. Pergunte: a entrega muda se essa pessoa não opinar?
- Nenhum R em uma linha. A atividade existe no papel e não tem quem faça.
- Matriz por tarefa, não por entrega. Cem linhas ninguém consulta. Fique nas entregas e decisões em que há risco de dúvida.
- Matriz esquecida depois do kickoff. Ela precisa ser revisada quando entra ou sai alguém e quando o escopo muda.
Como montar e manter a RACI com a equipe
Comece listando as entregas e decisões em que já existe ou pode existir dúvida sobre papéis. Faça um rascunho e leve para uma sessão curta com as pessoas envolvidas, idealmente no kickoff do projeto ou logo depois. Percorra linha por linha perguntando "quem aprova isso?" e espere a resposta da sala, em vez de dar a sua.
No caminho, você vai encontrar situações típicas. Se duas pessoas disputam o A de uma linha, leve a questão ao sponsor com as duas opções e o impacto de cada uma; não escolha sozinho entre dois gestores. Se ninguém aceita ser A, isso é um sinal de risco: a entrega pode não ter dono no negócio, e vale discutir se ela deveria estar no escopo. Se uma área quer ser C em tudo, ofereça ser I com acesso ao material e combine as poucas linhas em que a opinião dela é indispensável. Se os papéis se sobrepõem entre GP, tech lead e scrum master, use a matriz para separar decisões de produto, técnicas e de gestão, como em papéis sobrepostos entre tech lead, scrum master e GP.
Depois de acordada, a matriz precisa ficar visível: no repositório do projeto, no material de onboarding de quem entra e como referência quando houver dúvida.
O que dizer na sessão de RACI
"Não quero definir isso sozinho. Para cada linha, me digam quem dá a palavra final. Se a gente não chegar a um nome, isso já é uma informação importante."
"Você quer ser consultado aqui ou basta ser informado? Pergunto porque, se for consultado, a entrega vai esperar a sua resposta."
"Nessa linha temos duas pessoas como aprovadoras. Qual das duas responde se der errado? A outra pode ficar como consultada, com prazo para opinar."
Sinais de que a matriz está funcionando
O sinal mais claro é a redução de perguntas do tipo "isso já foi aprovado?". Quando os papéis estão claros, as pessoas sabem a quem pedir e a quem cobrar. Outro sinal é a velocidade das aprovações: entregas param menos tempo esperando alguém.
Sinais de alerta também aparecem. Se alguém aprova algo em que era só C, ou se uma área reclama que não foi ouvida numa linha em que era I, a matriz não reflete a realidade política do projeto. Revise com as pessoas envolvidas, sem tom de cobrança. E registre as aprovações importantes num registro de decisões, para não depender da memória de ninguém.
Exemplo: a aprovação que ninguém queria assinar
Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Rodrigo coordenava a troca do sistema de folha de pagamento de uma rede de clínicas. O RH e a contabilidade participavam de todas as reuniões, mas a validação das regras de cálculo ficava semanas parada.
Ele montou uma RACI de doze linhas e marcou uma sessão de quarenta minutos com a gerente de RH, Luciana, e o contador responsável, Márcio. Na linha de validação das regras, os dois se apontaram como aprovador. Rodrigo não decidiu: perguntou quem responderia se um funcionário recebesse errado. Luciana assumiu o A das regras trabalhistas, Márcio o das regras contábeis, e a linha foi dividida em duas.
Nas semanas seguintes, as validações passaram a ter dono e prazo. Rodrigo também percebeu que três linhas não tinham nenhum R e conseguiu remanejar o trabalho antes que virassem atraso.
O que a RACI revela sobre a maturidade do projeto
A matriz RACI parece uma ferramenta simples de organização, mas ela expõe quanto a organização está disposta a assumir responsabilidade. Quando é difícil achar um A, o projeto está mostrando que as áreas não sentem que ele é delas. Esse é um dado estratégico, não um detalhe administrativo.
Para o GP, conduzir essa conversa com tranquilidade é sinal de maturidade. Você deixa de ser quem empurra entregas e passa a ser quem organiza responsabilidades. Em organizações com um PMO que gera valor, a RACI costuma ser parte do padrão mínimo de qualquer projeto, justamente por esse efeito. Se você quer entender em quais competências de planejamento e liderança está mais forte, o Raio-X ajuda a ter essa leitura.
Checklist antes da sessão de RACI
- Listei as entregas e decisões com risco de dúvida sobre papéis
- Cada linha tem pelo menos um R
- Nenhuma linha tem mais de um A
- Revisei se todos os C são de fato necessários
- Convidei as pessoas que aparecem como A para a sessão
- Sei a quem levar as linhas em que não houver acordo
- Defini onde a matriz vai ficar e quando será revisada
Antes da próxima entrega travar
Escolha hoje a entrega do seu projeto que mais tempo ficou parada esperando alguém. Escreva quem você acha que é o R e o A dela e pergunte, individualmente, às pessoas envolvidas se elas concordam.
Se as respostas forem diferentes, você encontrou o primeiro item da sua RACI. Marque a sessão com as áreas ainda nesta semana.
Perguntas frequentes
Uma atividade pode ter mais de um A na matriz RACI?
Não deveria. O A é quem responde pelo resultado e dá a palavra final. Quando há dois aprovadores, cada um espera o outro ou eles discordam e a entrega trava. Se duas áreas precisam concordar, uma delas fica como A e a outra como C, com prazo combinado para opinar.
Qual a diferença entre R e A na matriz RACI?
O R é quem executa o trabalho. O A é quem responde pelo resultado e aprova a entrega. Em atividades simples, a mesma pessoa pode ser R e A. Em entregas que afetam outras áreas, separar os dois papéis evita que alguém aprove o próprio trabalho sem uma segunda visão.
Preciso fazer RACI para todas as atividades do projeto?
Não. Faça para as entregas e decisões em que há mais de uma área envolvida ou em que já houve dúvida sobre quem faz ou quem aprova. Uma matriz enxuta, com dez a vinte linhas, costuma ser mais usada do que uma planilha com todas as tarefas do cronograma.
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