Indicadores do PMO que ajudam a decidir (e os que só enfeitam)
Se ninguém muda de ideia depois de ver o painel do PMO, os indicadores estão enfeitando. Comece pelas decisões e só depois escolha os números.
Por Sergio Torres 9 min de leitura Atualizado em
O painel do PMO tem quatro abas, dezenas de gráficos e um semáforo para cada projeto. Ele é atualizado toda semana, consome boa parte do tempo de um analista e é apresentado no comitê mensal. Os diretores olham, comentam que está bonito e passam para o próximo assunto.
Depois da reunião, você se pergunta se alguém tomou alguma decisão diferente por causa daqueles números. A resposta honesta costuma ser não. O painel informa, mas não orienta. E quando surge um problema sério num projeto, ele chega pelo corredor, não pelo indicador.
Esse é o sintoma clássico de indicadores escolhidos pelo que é fácil medir, e não pelo que alguém precisa decidir.
O custo de medir o que não importa
Indicadores que não orientam decisões têm um custo direto e outro indireto. O direto é o tempo gasto para coletar, consolidar e apresentar. O indireto é mais sério: a sensação de controle. Um painel verde tranquiliza a diretoria e atrasa a percepção dos problemas reais.
Existe ainda o efeito sobre comportamento. Pessoas tendem a otimizar o que é medido. Se o indicador principal é o percentual de projetos no prazo, gerentes e sponsors aprendem a renegociar datas para manter o farol verde. O número melhora, e a previsibilidade real continua igual. O indicador passou a medir a habilidade de ajustar a linha de base, e não a de entregar.
Por que os painéis acabam enfeitando
O primeiro motivo é a origem. Muitos painéis nascem de listas genéricas de KPI para PMO, adotadas sem a pergunta "para quê, aqui?". O que faz sentido para uma organização com cem projetos de engenharia pode ser inútil para uma com quinze projetos de transformação digital.
O segundo é a disponibilidade de dados. Mede-se o que o sistema já registra: datas, percentual concluído, horas lançadas. São números fáceis e geralmente pouco informativos. O que importaria, como tempo de espera por decisão ou benefício realizado, exige esforço para coletar e acaba ficando de fora.
O terceiro é humano. Indicadores também protegem. Um painel cheio mostra trabalho, e trabalho visível dá segurança a quem o produz. Quem lidera o PMO pode sentir que reduzir o painel é reduzir a própria relevância. É uma preocupação compreensível, e vale encará-la de frente: relevância vem do uso, não do volume.
Começar pelo painel é começar pelo fim
O erro mais comum é abrir uma ferramenta de visualização e montar gráficos a partir dos dados existentes. O resultado é um painel que responde perguntas que ninguém fez.
Outro erro é tentar agradar a todos com o mesmo painel. O diretor quer saber onde precisa intervir. O gerente de projetos quer saber onde o fluxo está travando. O financeiro quer saber se o investimento está trazendo retorno. Um único painel que tenta atender os três acaba atendendo nenhum. Como mostra o texto sobre status report para executivos, o formato precisa partir de quem lê.
Do problema ao número em cinco passos
- Liste as decisões. Pergunte à diretoria e aos gerentes que decisões eles tomam com regularidade sobre projetos. Priorizar, pausar, realocar pessoas, liberar orçamento, intervir num projeto em risco.
- Transforme cada decisão em pergunta. "Onde preciso intervir este mês?" "Temos capacidade para aceitar um projeto novo?" "Os projetos concluídos estão trazendo o que prometeram?"
- Escolha o indicador que responde a pergunta. Só agora entra o número. Para a pergunta sobre intervenção, pode ser a lista de projetos com risco alto sem plano de resposta. Para capacidade, a ocupação das pessoas por perfil.
- Defina o gatilho. Todo indicador útil tem um ponto em que alguém age. Sem gatilho, o número é só informação.
- Teste por um ciclo. Use o painel por alguns meses e observe quais indicadores provocaram ação. Os que não provocaram nenhuma saem ou vão para um nível mais operacional.
Indicadores que costumam ajudar, e os que costumam enfeitar
Alguns tipos de indicador tendem a orientar decisões com mais frequência. Tempo médio entre um pedido de decisão e a decisão tomada mostra onde a governança está travando, assunto que conversa com governança de projetos sem burocracia. Número de projetos ativos ao mesmo tempo comparado com capacidade ajuda a priorizar o portfólio. Riscos altos sem dono ou sem resposta apontam onde intervir. E algum acompanhamento de benefícios depois da entrega, ligado à gestão de benefícios, mostra se o portfólio está trazendo retorno.
Outros tendem a enfeitar. Percentual concluído de cronograma, quando não está ligado a entregas reais. Quantidade de documentos em conformidade. Horas lançadas por projeto sem comparação com nada. Contagem de faróis verdes. Não são inúteis em todo contexto, mas raramente mudam uma decisão de diretoria.
Ajustando conforme a reação da diretoria
Se a diretoria gosta do painel atual e resiste a mudar, não retire nada de imediato. Acrescente uma página no início com três ou quatro indicadores ligados a decisões e um destaque para o que pede ação. Com o tempo, observe para onde as pessoas olham.
Se ninguém consulta o painel, o problema pode ser o canal e não o conteúdo. Experimente mandar um resumo curto antes do comitê, com os dois ou três pontos que exigem atenção. Painel bom não lido tem o mesmo efeito de painel ruim.
Se os números começam a ser manipulados, por exemplo com prazos renegociados para manter o verde, mude o indicador ou acrescente um contraponto. Ao lado do percentual no prazo, mostre quantas vezes as datas foram alteradas. A intenção não é punir, e sim manter o número honesto.
Se, mesmo com indicadores bem desenhados, as decisões não acontecem, o problema não é medição. É governança ou poder, e o caminho passa por rever o papel do PMO, como discutido em como montar um PMO que gera valor.
Frases para conduzir a revisão do painel
"Antes de mexer no painel, queria entender que decisões vocês tomam com ele. Se um número mudar, o que vocês fariam diferente?"
"Esse gráfico está aqui há um ano e não lembro de nenhuma decisão que ele tenha provocado. Proponho tirar por um trimestre e ver se alguém sente falta."
"Em vez de mostrar todos os projetos, vou destacar no início só os que precisam de alguma ação de vocês este mês."
"Esse projeto está verde, mas a data já mudou três vezes. Quero mostrar os dois números juntos para a gente não se enganar."
Como saber se os indicadores estão servindo
O sinal mais forte é ouvir executivos citando um indicador para justificar uma decisão. "Vamos segurar esse projeto porque a ocupação da equipe de dados está no limite" é uma frase que mostra que o número entrou no raciocínio.
Outros sinais: perguntas mais específicas no comitê, pedidos de detalhamento sobre um ponto do painel, gerentes que usam os indicadores para pedir ajuda. Se, depois de alguns ciclos, as reuniões continuam com os mesmos comentários genéricos, volte à lista de decisões e confira se as perguntas eram as certas. Cuidado também com o viés de confirmação: é fácil escolher os números que confirmam o que você já acredita sobre o portfólio.
Exemplo de um painel que encolheu e passou a ser usado
Exemplo ilustrativo (situação fictícia): Fernando liderava o PMO de uma empresa de saneamento. O painel tinha mais de trinta indicadores e levava dois dias por mês para ser montado. No comitê, os diretores passavam rapidamente pelos gráficos e voltavam a discutir assuntos que não estavam ali.
Fernando entrevistou quatro diretores com uma pergunta: "que decisão sobre projetos você tomou no último trimestre, e que informação faltou?". As respostas giraram em torno de dois temas: não saber se havia gente disponível para projetos novos e descobrir tarde que obras estavam travadas por licenças.
Ele criou uma primeira página com quatro indicadores: ocupação por equipe, projetos parados aguardando decisão externa, tempo de espera por decisões do comitê e riscos altos sem plano. Manteve o painel antigo como anexo. Na segunda reunião, uma diretora usou o indicador de projetos parados para pedir uma conversa com o órgão licenciador. Em alguns meses, o anexo deixou de ser aberto, e Fernando o retirou com a concordância de todos.
O que os indicadores dizem sobre o PMO
Um painel é um retrato das prioridades do PMO. Se ele mostra conformidade, o PMO se vê como fiscal. Se mostra fluxo de decisões e benefícios, se vê como parceiro do negócio. Escolher indicadores é, portanto, uma forma de definir o papel da área.
Para quem lidera o PMO, abrir mão de números que dão trabalho e não servem exige alguma humildade. Em troca, o painel passa a ser consultado, e o PMO passa a ser chamado para as conversas em que as decisões acontecem. Se quiser avançar na medição de resultado, o próximo passo é definir e acompanhar os benefícios do projeto.
Checklist para revisar o painel do PMO
- Cada indicador está ligado a uma decisão que alguém toma com regularidade.
- Cada indicador tem um gatilho claro de ação.
- O painel executivo é diferente do painel operacional dos gerentes.
- Há pelo menos um indicador de fluxo de decisões.
- Há algum acompanhamento de benefícios depois da entrega.
- Indicadores sujeitos a manipulação têm um contraponto.
- Os indicadores que não provocaram nenhuma ação no último ciclo foram revistos.
Uma pergunta para o próximo comitê
No próximo comitê, antes de apresentar o painel, pergunte aos executivos qual decisão sobre projetos eles precisam tomar no próximo mês. Anote as respostas e compare com o que o painel mostra. A distância entre as duas listas é o seu plano de trabalho.
Perguntas frequentes
Quantos indicadores um PMO deve acompanhar?
Não existe número certo, mas um painel executivo costuma funcionar melhor com poucos indicadores, cada um ligado a uma decisão clara. Indicadores operacionais podem existir em outro nível, para os gerentes. O teste é perguntar, para cada número, o que alguém faria de diferente se ele mudasse.
Percentual de projetos no prazo é um bom indicador de PMO?
Pode ser, mas sozinho costuma enganar. Prazos podem ser renegociados para que o projeto fique verde, e projetos no prazo podem não entregar o benefício esperado. Ele funciona melhor acompanhado de indicadores de fluxo, como tempo até a decisão, e de algum acompanhamento de benefícios.
Como medir o valor do próprio PMO?
Observe efeitos que o PMO influencia: velocidade das decisões de portfólio, previsibilidade das entregas, antecedência com que os riscos aparecem e uso das informações do PMO pela diretoria. Pergunte também aos executivos e gerentes que decisões ficaram mais fáceis por causa do trabalho do PMO.
Pratique
A promoção que chegou na hora errada
Se você fosse o André, que resposta daria à Sônia na sexta-feira, e por quê?
Responder o casoReceba um tema prático como este toda semana
Diário do Gerente de Projetos: uma jornada de 50 semanas, gratuita, 1 e-mail por semana.